29/6/10
VELAR
Calor. Muito e carrasco. Três dos quatro anexos do automóvel se revelam quase simultaneamente. O caminho de grama alta, esmaecido pela aridez de muitos meios-dias, sobra feito um tapete real inglório. Amassando-o, descem mãe, pai e filho – primeiramente o pequeno menino –, e de sua boca seca é arremessada uma massa espumosa que somente serve para mais empolar a língua. O cuspe, espesso como a atmosfera que se avizinha, esparrama-se para em seguida desaparecer às pisadelas. Fita-se ao longe um casebre enxuto. A via marcada por polígonos de cimento aparenta ser demais íngreme e extensa. No ar inexiste pompa, não se ouvem sinos. Um farfalhar constante, ainda que breve e acompanhado por assovio desafinado, assume a vez de tormentosa trilha, já superada desde o ronco sutil de motor engasgado. Chega-se ao culto. Curto o fio da memória. Nó na gravata e na garganta – enlace este impreciso, pois, apesar de adiantada a cerimônia, não há mais primo sequer a derramar lamento.
Ao se analisar a fauna local, que é cuidado de mínimo dote de acuidade, nota-se o preto, longas fileiras negras, a despeito do calor infame. É o luto, reverberam os cantos lamuriosos. O mocinho não se encontra confortável, nem seu cadarço é ao menos pardacento. Rezingas e caras tortas não se ouvem nem se fazem, embora conheçamos bem o tranco de destoar. A mesa larga, o sotaque arrastado, as portas de mármore e o chão de ladrilhos foscos arrematam o conjunto carregado. Convidativo domingo. De quem foi a idéia de se espremer gente num salão abafado, pergunta-se ele, sem qualquer quebra de contrato impúbere.
Beberica-se água, comenta-se o vizinho. E cada qual segue frio. Que diga o paradoxo montado por essa gente enrugada e sisuda, que transforma até gangorra de parque em balança de classes. Emoldure-o agora. Estranhado. Canelas finas de fora. Bolinha de feltro colorida amassada pela mão babada. Chupeta no canto da boca. Olhinhos caídos. Vontade à porta. Ao largo da consternação, pela contramão, vem a comichão, o risinho. Mitigação para o garoto afeito às travessuras da idade, capcioso a molestar as velhas e se rolar no piso. Fingindo-se débil reclama carinho, e angaria, com descarada denguice, todo tipo de atenção. Há quem teime em atentá-lo, de modo a não parecer ser suficientemente pesaroso o espectro de aflição a assaltar o cômodo. Inocentemente enfadado – a ignorância é uma bênção, se é que se está sacro –, ele saltita satisfeito, porque para a exultação não há clima, não há média. Ela está em uma praia ensolarada e num programa de índio. Independe de astro, época ou tino. É inerente ao espírito e alheia aos costumes de tribo.
Inconfortável, a ele dezenas de vezes é perguntado se quer urinar. Quando da última, o tédio ansioso o leva a disparar pelo espaço vazio, fazendo-o deparar pela primeira vez o cadáver encaixado. Refreia. Aproxima-se de fronte baixa e caminhar arrastado. Seus pés então roçam displicentemente os apoios da caixa fúnebre, e ao fundo, enquanto vidrado e finado se medem, incipiente e recipiente se testam, a quase caveira e o meio menino se embatem, ouve-se o tom grave das exéquias novamente, como um refrão peganhento. As falas do pároco parecem conservar quaisquer resmungos de outrora, com sobras e leves perdas, feito filme-adaptação, “(…) Padecer frente ao inelutável, porquanto somos matéria viva seguida de morte, fato que permanecerá incognoscível, porém igualando tudo que é vivo num único rebanho de condenados”.
Caso não faz. Mais palavras, mais agito. Saracoteia pelo salão em ziguezagues lépidos, ao som dos versos duros e nada originais do eclesiástico. Circunda, zanza, tange as hastes de ferro que servem de suporte para as velas inflamadas até, atabalhoado, conseguir uma a uma as derrubar sobre si. Faz da cera quente ardência para os olhos, crostas na pele tenra; e dos sustentáculos pesados hematomas amarelados, estupefação para os tios. Desvia sem intento – mas com zelosa vontade – as orações das beatas e o choro das carpideiras. Os esforços se apinham em desfavor de seus ferimentos. Sete velas espedaçadas, inutilizadas de pavio. Uma para cada pecado puro a povoar a carne, cada mar de sonhos irrealizáveis, cada vida de bichano levado, ainda que tomem duas de sobejo, tanto melhor. Pálpebras cerradas. Boca entreaberta. Expectativa aflitiva: E gargalha, seguido por todos. Como a esganar do receio a cerviz.
Coisa alguma se comenta adiante. Trinta minutos correm sem lembrança do jazido defunto no átrio contíguo. A comunhão toma contornos de festividade herética, com o moleque a viajar entre braços, de colo em colo, amassado por dedos nervosos, sufocado por mãos serpenteadas a terço. Passada a sucinta epifania, segue-se o curso natural. À hora das rezas derradeiras, e por serem as palavras somente isso, palavras, nada mais, vê-se então que, em suas etapas, a liturgia é mesmo um alento, está claro. Porém para os vivos. Pois que os mortos, esses espichados e duros, não oram, não choram e não velam. São taciturnos e pálidos. E só.
Bruno Galhardo. 29 de junho de 2010
* Este texto, deliberadamente, não respeita o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, vigorante no Brasil desde janeiro de 2009
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