29/1/08

O Que Não se Traduz

 

Para quem saudoso está,

é pra você que então descrevo.

Desabrigo meu desejo

no relato, um ensejo.

Desobrigados, comecemos.

 

Eu que sinto, mas não sei,

não conheço, nunca vi,

sentimento parecido

que se soma à nostalgia

com um dedo de agonia.

 

Você viu quem outro dia?

Sua memória estremeceu?

Ou emudeceu sua alegria?

A mistura o embargou?

Embrulhou sua barriga?

 

Estranha sensação…

 

Eu pergunto de onde vem,

se a constante calmaria

ainda há pouco se fazia

tão presente em você?

 

Como explica a confusão?

Se um perdido, leve cheiro,

desmorona o seu chão;

se o ranger das velhas botas

acelera a pulsação?
Não é tida sapiência

que esparrame e assim desfaça

o vão que ainda espaça

o revirado coração.

 

A saudade que lhe mata

vai voltar sem nem ter data,

sem agendar visitação.

E você, bem precavido,

das lembranças, meu amigo,

vai fazer inspiração.

 

 

Bruno Galhardo. 29 de janeiro de 2008

criado por Bruno    3:00 — Arquivado em: Geral

21/1/08

Enviar

 

Quase não acreditei

quando abri o meu e-mail,

sonolento, hoje cedo,

e lá estava o seu pra mim -

bem na Caixa de Entrada,

pena eu já de saída.

 

Breve, tácito, peguei

o celular e digitei,

nem tão logo encaminhei-lhe

uma mensagem que termina:

“Sofro mais a cada dia…”

 

Receoso, todavia,

creio eu, não chegaria,

corro pronto pra enviar

um recado inconseqüente.

Mal sabia, assim nervoso,

afobado, temeroso…

esqueci seu endereço.

 

Insistente a procurar,

bem cansado vim lembrar

e fui buscar meu notebook.

Em grandes bytes desenhei,

como em sonhos que ainda busco:

Foi em vão, não mais tentei.

Larguei mão e desliguei.

 

Escrevi foi um bilhete.

Ou melhor: uma cartinha.

Engraçado, a gente sente

cada letra sobre a linha,

vai dosando as palavras

e moldando a melodia.

 

Desisti, saí demente -

eu, em mãos, o seu bilhete -,

fui enfrentar com galhardia

cinco horas de agonia.

E sua rosa pra outro dia

eu deixei, à revelia.

 

Embarquei-me num coletivo -

logo eu, tão sempre altivo.

Não me importo, já pesei,

sei que vale o sacrifício.

 

E foi assim, monotonia,

que, ansioso - fim do dia -,

desci num pulo contente

na Avenida Tiradentes

e a encontrei: Mas que alegria!

 

 

Bruno Galhardo. 21 de janeiro de 2008

criado por Bruno    19:51 — Arquivado em: Geral

16/1/08

O Fim

 

Há sempre um fim para cada começo.

 

Não.

 

O que há é sempre um novo começo para todo final,

não existe fim.

O fim é só uma passagem desencontrada na linha do tempo,

estamos sempre começando.

 

E para todos aqueles que o tempo cultuam:

 

Findo, então, o meu começo

e recomeço, aqui, o meu final.

 

 

Bruno Galhardo. 16 de janeiro de 2008

criado por Bruno    1:50 — Arquivado em: Geral

14/1/08

Distorção

 

Derrota cabida,

decerto locada;

na dor da partida

nenhuma migalha.

 

Saiba:

Fui eu quem entregou os pontos

(ponto pra você!).

Mas saiba também, querida,

que a mim nada atrapalha.

Querendo assim,

assim ficará.

 

Orgulho aprendi,

engoli sem ter água -

hoje não é qualquer luz

que o meu sono embriaga.

Nem dos seus lindos olhos,

nem da mente apagada.

 

Eu tenho saída,

saída de escape.

Não foram suas delicadas mãos

que na dura descida do real

o meu peito sustentaram.

Foi meu forte, farto medo,

quem me ergueu na derrocada.

 

Faça assim:

Esqueça as puras palavras

e também as boas risadas.

Guarde o rancor e a saudade,

e tudo que traz infelicidade,

numa caixa amarelada, recoberta pelo tempo -

quem sabe o mofo não conserve

seus anseios em pensamento.

 

E não será agora, meu bem,

que de novo meus joelhos

fortemente tocarão,

nem o carpete vermelho,

nem, de longe e  leve, o chão

 

Eu não tenho mais enganos,

tenho, sim, são muitos planos.

Incontáveis, em demasia.

Parte deles até fazia,

mas não é, tenha certeza,

com a presente ausência sua

que se acabou a poesia.

 

Pelo contrário.

Muito pelo contrário.

 

 

Bruno Galhardo. 14 de janeiro de 2008

criado por Bruno    18:32 — Arquivado em: Geral
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