28/3/08

Medo

 

Não se fazia mais bravura como antigamente.

Assim sendo, resolvi ‘inda insistir.

Foi um erro dos mais crassos…

Aí vem ‘cê sabe quem.

Ele vem, segue, persegue,

faz por onde e bem consegue

ofuscar-me por tabela.

 

Não espero nada mais que um suspiro aliviado

quando vir já retirado, de mim mesmo amputado,

este pobre sentimento incoerente e mal casado.

 

Sentimentozinho fajuto…

Fora cuspido naquela hora de indecisão;

foi num momento de opção.

Não se engane, não foi chama

nem flechada burra do cupido desocupado.

Sem espelho, nem vi sombra.

Sobra apenas a sensação de incompetência, de algo inacabado.

Bobagem…

A culpa foi toda sua.

Isso mesmo.

Avise a quem quiser ouvir que, a partir deste momento, isento-me de qualquer responsabilidade.

 

A certeza bate firme.

A suave brisa da verdade -

a minha,

a que vale.

 

Embora nem tudo tenha sido feito,

tudo fiz que poderia.

E, claro, não me surpreenderia,

abatida, algum dia,

queira então voltar atrás.

Mas com certeza não o faria.

Esse escudo é de aço…

 

Essa camada de proteção,

esse invólucro maciço,

nem o mais potente maçarico é capaz de transpassar.

Essa pompa ostentada,

por mil rios tão entoada,

não me passa de receio:

O conhecido, velho medo,

que não nos deixa continuar.

Que segura os calcanhares,

que no cruzar de dois olhares

faz um deles reclinar.

 

Chame bem como quiser esta carta de defesa.

É minha petição de força, minha auto-massagem de ego.

Ponha um prego na parede e pendure uma moldura.

Onde em branco estará minha imagem e sua coragem.

Lado a lado em transparência, em ausência de beleza.

 

E no tapete do seu quarto dê um trato de limpeza.

Empurre toda a sujeira pra debaixo se guardar.

Porque lá sempre estará toda vez que se pisar.

Mas se um dia revirado, por descuido preparado,

você sabe, é inevitável…

 

tudo à tona irá voltar.

 

 

Bruno Galhardo. 28 de março de 2008

criado por Bruno    14:03 — Arquivado em: Geral

15/3/08

E Agora, João?

 

Então me vem João.

Inundado de cachaça,

posto em pé, meia-pataca,

bem sabido que a desgraça -

braços dados - são irmãs.

 

Foi assim:

 

Uma vez beijou o piso.

Nada novo, só rotina.

Esmoreceu-se seu sorriso,

e a cortina se fechou.

As pessoas à sua volta

praguejavam: “Não tem volta!”

Era o fim de São João…

 

Combalido e abatido,

acuado, desvalido,

num esforço tão sofrido

desta vez se levantou.

O sucesso o alcançara,

o mau tempo foi-se embora

e o de glória regressou.

 

Mas a vida é mesmo injusta.

E sem ao menos ter culpa,

outra vez, mas que bagunça,

foi João dar com sua fuça

no gelado, raso chão.

Desse jeito, e já ferido,

encontrou-se desarmado.

Pela sorte do acaso

outro vaso se quebrou.

 

Agora sim, erro não tinha.

Pôs-se um fim à provação.

São João perdido estava,

esperando redenção.

 

Era dor (via-se em seus olhos),

era medo (tinha em seu peito),

mas também era desejo

de, de novo, superar-se.

Abraçar seus bons amigos,

todos juntos caminharem.

 

Assim foi, quem duvidava?

O azar que perdurava

finalmente terminou.

Seu João voltou pra casa

e por Rosa, que o aguardava,

jogou fora a aguardente,

quis urgente seu perdão.

 

Em seus bolsos nada havia;

na cabeça,

confusão.

E no coração cansado,

já por muito calejado,

carregava a incerteza

de, por nunca ter rezado,

esperar angustiado

do Divino

punição.

 

“Ave, Maria cheia de graça…”

 

 

Bruno Galhardo. 15 de março de 2008

criado por Bruno    18:40 — Arquivado em: Geral

12/3/08

Adeus, Minha

 

Lembro-me bem.

Eram sete da matina, suada rotina.

Bati o rádio relógio, embrulhei-me em minha colcha e fui sonhar com o outro dia.

Não se ouvia mais o tique-taque natural…

Melhor mesmo.

Tudo era calmo e sinistro.

E eu esquecia-me que era segunda.

 

Fazia-se luz na cidade do cinza.

Era monocromático também o meu peito.

Desci as escadas, liguei a TV e ri do telejornal matinal.

Meu Deus!…

como as notícias soavam-me engraçado naquele dia.

Ria alto e sozinho para o nada.

Sentia-me bem.

 

Calcei os sapatos um pouco surrados;

vesti a camisa, sem pressa embutida.

Passava das nove, e eu nem mais ligava.

Liguei pra você, e, claro, “ocupado”.

Sorri amarelo, abri meu caderno…

dia 25: ô dia bonito!

Sem motivo.

É só o dia depois de ontem,

e que ficará conhecido como o antes de amanhã.

Chupei uma bala, a mochila na sala.

Peguei-a na mão e saí disparado.

Pobre coitado…

 

De noite, voltei

acelerado e feliz.

Trouxe até um presente

(é estranho insistir).

A janta quentinha, receita da noite:

“Misto-quente”.

O era, pelo menos no nome.

Aliás, o seu eu chamei quando trocava a lâmpada.

Aquela do criado-mudo, que tanto pedira…

Um pouco tarde, concordo, mas agora funciona.

Já pode ler seu Drummond…

enquanto folheio suas crises e traduzo seus gostos.

Ah!…

Isso eu fazia bem.

 

Meu bem,

o difícil não é dormir solitário.

O torturante é não ter mais

nem sua chave de pernas em mim pela noite,

nem seu ácido gosto de café pela manhã.

O duro é levantar,

e não ver a torrada passada,

a suja almofada,

a torneira pingando,

só o corpo minguando

e você não mais sempre ali.

Corcunda, descalça.

Resmungando do chão gelado.

Dando-me “bom-dia!” murchinho.

Narrando um sonho corrido - eu tinha morrido.

Que ficou assustada, banhada em suor…

Beijando-me a testa, dizendo: “Homem não presta!”.

E me chamando de amor.

 

Pois, então.

Por que não volta e se achega?

Eu trago a cerveja, e juntos brindamos.

Eu limpo a louça, lavo a alma;

lasseio a vontade, asseio a casa;

corto o cabelo, paro de fumar…

Bem como você prometera.

Lembra?

É claro que não.

Sua memória é como um frasco vazio:

Sorveram-lhe tudo.

 

Você tinha tantos planos…

tinha…

não tem retorno.

Adeus, minha.

Minha adorada, amante ingrata.

Já faz quinze anos,

eu fiz meio século…

Fiz, e mais nada me importa.

Pela fresta da porta vejo contente a gente.

Velhinhos, enrugados,

contando remédios,

contando pros netos aventuras de amor.

 

Mas pela luz da varanda

não há esperança.

Vejo um eu solitário,

agosto falhado…

prazer: solidão.

 

 

Bruno Galhardo. 12 de março de 2008

criado por Bruno    1:53 — Arquivado em: Geral

3/3/08

Revanche

 

Luta…

Luta mais, que é devido.

Vem, que me atiro a ti em pedras.

Vem e muda, muda a marcha.

Fica muda, fala nada.

Ouve agora o meu sofrido,

tão confuso, dolorido,

retorcido em ferro e brasa,

devaneio desviado.

 

Bem mastiga, parte o ódio.

Sente a boca remoer.

Vai doer, não vai ter graça!

Tu me negas reticente.

Reticente, displicente…

Irrita-me, sufoca-me.

E onde o medo já não mora -

logo ao lado, lado esquerdo -

que a ausência faz resposta.

 

Vai, procura tua toca.

Cava fundo a plenitude.

Cava mais, não é bastante!

Não obstante, vou ficar

a debochar dos teus tropeços,

gargalhar por não ter volta,

contemplar tua derrota.

 

É suor de toda a noite,

é não mais ser teu amigo.

E a bravura, confiança,

seguem seco teu caminho.

É a mente apavorada,

a esperança se esvaindo…

É revolta.

Alívio enquanto escrevo,

amargura rancorosa.

 

Desejo o mal, a vil vingança,

herança pra teus filhos

(bendita ignorância dos que não seguem aflitos).

Pois quando acerto e te revido,

já que dei a cara à tapa,

agora sou eu que maldigo

e dou risada da desgraça.

 

Preparada pra revanche?

É desmanche, pronta ou não.

Não é ato nobre ou digno,

muito menos elegante.

Mas é tão reconfortante,

que, por mais que se levante,

quero mesmo é ver cair.

 

 

Bruno Galhardo. 3 de março de 2008

criado por Bruno    23:43 — Arquivado em: Geral
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