Tá aí!
Eis aqui o pior, o lado negro.
O que ninguém deve saber.
O que se deve esconder.
A antítese à mostra,
a carne exposta.
Vou entregar-lhes agora os percalços obscuros de um ser estraçalhado.
Pedaços por todos os lados, o pouco do que foi violado.
É perde-se na tentativa de se remontar.
Vejam só sua carta de independência;
leiam as entrelinhas!…
É na verdade um pedido de libertação, o grito de socorro.
(…)
“Acudam!” - ele diz.
Não é heróico, é patético.
É ver rosa aonde não nasce nem pé frio de esperança adolescente;
é carregar no peito a merda de uma medalha enquanto se arrasta de muleta…
Convalescente, sente pena.
Pena dele mesmo, dos dias que lhe sobram.
“Aplausos para o herói guerreiro!” -
ouvem-se apenas gritos de alegria.
Só nostalgia e saudação.
“Assassino!” - escuta-se abafado.
Olhar de relance, ligeiro tumulto.
Foi um susto, já passou.
O ouvido pega fogo, zunidos incessantes -
“Pro chão!”.
45 anos, e ainda rasteja de quatro quando o filho assiste a filmes de ação…
Os grandes reis passaram a se odiar.
Estranho…
eram como irmãos…
apertavam sujas as mãos.
Começa exatamente aí sua epopéia, que de grandiosa só tem a duração.
Comoção em casa, abraço da mãe.
Lívido e apavorado o pai consola:
É choro, o qual se ouvirá por muitas vezes.
Mas bate no peito, é a chance de ouro:
“Serei capitão!”.
Maleta velha de couro.
Eram quatro pares de meias pretas, três calças de linho e uma camisa-de-força.
Estava cheiroso…
Apresentou-se ao sargento, sorridente.
“Vai me chamar pra sair, soldado?” -
eram risos, como não se escutaria por um bom tempo.
Foram dois anos.
Um de espera, e outro implorando pra voltar.
Trincheiras, fileiras de homens sangrando ao luar;
era vermelho e marrom brincando de um só.
Um contingente pequeno e mortes recorrentes:
Soldado, sargento, tenente, capitão…
fora promovido por falta de opção.
Seu batalhão era composto por doze soldados rasos de pavor.
Vitorioso, escrevera pra sua mãe:
“Meu dia chegou!”.
O corpo exaurido, batalha atrás de batalha,
olhos fechando, tensão no ar.
Rifles de pensamentos contra metralhadoras de mágoas:
Estava farto.
Alguns mais lúcidos cometiam suicídio…
Dia perdido.
De volta ao planejamento.
Foi no acampamento que um susto levou.
Já passava das duas…
Sentado sob sua tenda abarrotada de solidão, traçava desinteressado mais um plano de combate.
Afinal, era o comandante do embate, o bravo capitão!
Seu velho sonho infantil…
e o longo pavio comendo-lhe os minutos.
Reclinava com a cadeira para frente e para trás -
era um vaivém preguiçoso e hipnótico,
como querendo se ninar.
De sono vencido, deu-se de encontro ao chão.
Quebrou a lanterna, e não só isso…
a perna.
Não foi de tudo ruim, não.
Homenageado, voltou para casa três semanas depois como “herói de guerra”.
Canela engessada e dois quilos mais pesado de cobre
(fora nobre sua colisão).
A mãe, orgulhosa, crescia-se para as vizinhas:
“Vocês viram o meu menino nos jornais?”
O pai, elevado, contava vantagem:
“Levou cinco tiros numa só perna!”
Porém, em sua cabeça pesava a enganação.
Ainda mais quando revia em sua mente aquela cena
do hospital, em Cartagena,
onde tombado em seu leito e com o pé direito enfaixado, um soldado emocionado veio dar seu depoimento.
Que momento de agonia!…
Dizia ele que o admirava, que rezava impaciente.
Que seu sonho, como o dele, era fazer-se capitão,
comandar seu pelotão.
Que papelão!…
Sua então alta patente era o sinônimo pungente da iminente confusão.
Aquele magro, pálido homem, com a farda amarrotada, que nem de longe lhe lembrava o mais temente dos cadetes,
era a disforme claridade que incomodava-lhe a visão.
Por todos os coturnos sujos de lama e noites em claro na cama, sentiu-se envergonhado.
E enquanto a lágrima escorria, e a desonra se esbaldava,
o fuzileiro que vos fala proferiu estas palavras que alfinetaram-lhe o bom senso,
e assim narrando nem parece, mas cutucaram-lhe a razão:
“Melhoras, capitão!”
Bruno Galhardo. 6 de abril de 2008