28/4/08

Nada de Nada

 

E quando é nada o que sentimos?

Ou nada é o que fazemos?

Nada eu tenho pra escrever.

Não tenho motivos nem palavras.

Lavrados estão todos os sentimentos;

lavada está a minha cara.

 

E quando é nada o que oferecemos?

Padecemos de angústia.

Nada da mísera imagem do nada,

um substrato de algo mínimo,

um menos um:

Nada.

 

E quando é nada o que ganhamos?

Estamos estranhos no ninho.

Nem fim nem passagem,

apenas miragem.

Nada é o encontro de alguém que se foi

sem o outrem que voltava;

o rumo de nada.

 

Nada me resume em tudo,

é minha síntese auto-explicativa:

Nada ganhei,

nada somei,

nada no mar e morre na praia.

Enfim, nada.

 

O bom também é lembrar que nada foi o que perdi.

Nada de choro,

nada de sofrimento,

talvez solidão,

mas nada de doce lamento.

Tendo eu tudo perdido,

encontro-me com o nada, conformado.

 

Mas e quando é nada de nada?

Nada de carinho, nada de abraço…

na amplidão do vazio deste monte de nada

caminho macio na imersão de coisa nenhuma,

fortaleza de espuma;

função de nada.

 

E quando o que temos é nada?

Oras!

Se é nada o que temos,

havemos já algo:

Um vago pensamento de ter

o qual não deixa esquecer

que um eu só, sem você,

é um pouco menos que nada;

uma prorrogação de inexistência.

 

Nada…

 

Nada é tudo o que encontro bem no fundo dos seus olhos.

O pior vazio de todos.

Pois quando existe ausência pura,

ao faltar algo concreto,

não sentimos, entreaberto,

o próprio peito a palpitar.

Porém, havendo vida em forma

no olhar de quem retorna,

e não poder ver-se espelhado,

refletido na retina,

é o supra-sumo do sofrer,

do querer,

meras meninas.

 

Menina-dos-olhos…

 

Que de menina não tem nada.

E em seus olhos menos ainda.

 

 

Bruno Galhardo. 28 de abril de 2008

criado por Bruno    2:49 — Arquivado em: Geral

14/4/08

Distorção III

 

Bravo!…

Muito me admira estar aqui neste ambiente,

rodeado, tanta gente,

e novamente tão sozinho.

 

Segui as placas pra que erro não tivesse.

Não foi justo, sou reincidente.

Não primário; sim confesso.

Mas justiça não me cabe.

Bem se sabe que me invade

a vontade de fazê-la…

 

porém, mais felizes são aqueles

que, ao não verem seus pecados,

não resmungam acordados

como sábios eloqüentes.

Que quando falam são austeros,

no entanto, incoerentes.

 

Venha,

sirva-se de carinhos.

Chegue-se, que a mesa já está posta.

Melhor tapar os seus ouvidos

(são verdades muito impróprias).

O caminho foi seguido,

sendo assim, não tem mais volta.

 

Feito vela, o que lhe espera

é consumir-se, minha bela.

Assim mesmo - como chama

que lhe chama aqui pra perto.

Mas se o certo é estar longe,

não me espere para a festa.

Vou ficar, interrompido,

enfeando a cidadela.

 

Os portões e as janelas

vão de novo se fechar.

E se de novo não tem nada

nesta fábula encantada,

meu conforto, no futuro,

é saber que vai lembrar.

Não de mim, nem de minha cara;

sim de algumas poucas falas,

que vontade sei não tinha,

mas ouvia-as, concentrada.

Onde havia campo livre

eu, mesmo rei, não governava.

 

Corôo-me agora servo.

Não me serve mais sorver

todo o gosto do desgosto

que em mim quer renascer.

Só queria que soubesse,

por final, de quem merece:

Que muitas vezes me contive

em revelar-lhe que um dia tive

a dona do meu castelo

em seu trono, minha rainha.

 

 

Bruno Galhardo. 14 de abril de 2008

criado por Bruno    2:42 — Arquivado em: Geral

6/4/08

Melhoras, Capitão

 

Tá aí!

Eis aqui o pior, o lado negro.

O que ninguém deve saber.

O que se deve esconder.

A antítese à mostra,

a carne exposta.

 

Vou entregar-lhes agora os percalços obscuros de um ser estraçalhado.

Pedaços por todos os lados, o pouco do que foi violado.

É perde-se na tentativa de se remontar.

Vejam só sua carta de independência;

leiam as entrelinhas!…

É na verdade um pedido de libertação, o grito de socorro.

 

(…)

 

“Acudam!” - ele diz.

Não é heróico, é patético.

É ver rosa aonde não nasce nem pé frio de esperança adolescente;

é carregar no peito a merda de uma medalha enquanto se arrasta de muleta…

Convalescente, sente pena.

Pena dele mesmo, dos dias que lhe sobram.

 

“Aplausos para o herói guerreiro!” -

ouvem-se apenas gritos de alegria.

Só nostalgia e saudação.

 

“Assassino!” - escuta-se abafado.

Olhar de relance, ligeiro tumulto.

Foi um susto, já passou.

O ouvido pega fogo, zunidos incessantes -

“Pro chão!”.

45 anos, e ainda rasteja de quatro quando o filho assiste a filmes de ação…

 

Os grandes reis passaram a se odiar.

Estranho…

eram como irmãos…

apertavam sujas as mãos.

Começa exatamente aí sua epopéia, que de grandiosa só tem a duração.

Comoção em casa, abraço da mãe.

Lívido e apavorado o pai consola:

É choro, o qual se ouvirá por muitas vezes.

Mas bate no peito, é a chance de ouro:

“Serei capitão!”.

 

Maleta velha de couro.

Eram quatro pares de meias pretas, três calças de linho e uma camisa-de-força.

Estava cheiroso…

Apresentou-se ao sargento, sorridente.

“Vai me chamar pra sair, soldado?” -

eram risos, como não se escutaria por um bom tempo.

 

Foram dois anos.

Um de espera, e outro implorando pra voltar.

Trincheiras, fileiras de homens sangrando ao luar;

era vermelho e marrom brincando de um só.

Um contingente pequeno e mortes recorrentes:

Soldado, sargento, tenente, capitão…

fora promovido por falta de opção.

Seu batalhão era composto por doze soldados rasos de pavor.

Vitorioso, escrevera pra sua mãe:

“Meu dia chegou!”.

 

O corpo exaurido, batalha atrás de batalha,

olhos fechando, tensão no ar.

Rifles de pensamentos contra metralhadoras de mágoas:

Estava farto.

Alguns mais lúcidos cometiam suicídio…

Dia perdido.

De volta ao planejamento.

 

Foi no acampamento que um susto levou.

Já passava das duas…

Sentado sob sua tenda abarrotada de solidão, traçava desinteressado mais um plano de combate.

Afinal, era o comandante do embate, o bravo capitão!

Seu velho sonho infantil…

e o longo pavio comendo-lhe os minutos.

 

Reclinava com a cadeira para frente e para trás -

era um vaivém preguiçoso e hipnótico,

como querendo se ninar.

De sono vencido, deu-se de encontro ao chão.

Quebrou a lanterna, e não só isso…

 

a perna.

 

Não foi de tudo ruim, não.

Homenageado, voltou para casa três semanas depois como “herói de guerra”.

Canela engessada e dois quilos mais pesado de cobre

(fora nobre sua colisão).

A mãe, orgulhosa, crescia-se para as vizinhas:

“Vocês viram o meu menino nos jornais?”

O pai, elevado, contava vantagem:

“Levou cinco tiros numa só perna!”

 

Porém, em sua cabeça pesava a enganação.

Ainda mais quando revia em sua mente aquela cena

do hospital, em Cartagena,

onde tombado em seu leito e com o pé direito enfaixado, um soldado emocionado veio dar seu depoimento.

Que momento de agonia!…

Dizia ele que o admirava, que rezava impaciente.

Que seu sonho, como o dele, era fazer-se capitão,

comandar seu pelotão.

 

Que papelão!…

Sua então alta patente era o sinônimo pungente da iminente confusão.

Aquele magro, pálido homem, com a farda amarrotada, que nem de longe lhe lembrava o mais temente dos cadetes,

era a disforme claridade que incomodava-lhe a visão.

Por todos os coturnos sujos de lama e noites em claro na cama, sentiu-se envergonhado.

E enquanto a lágrima escorria, e a desonra se esbaldava,

o fuzileiro que vos fala proferiu estas palavras que alfinetaram-lhe o bom senso,

e assim narrando nem parece, mas cutucaram-lhe a razão:

 

“Melhoras, capitão!”

 

 

Bruno Galhardo. 6 de abril de 2008

criado por Bruno    19:17 — Arquivado em: Geral
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://haagendazsdemangaba.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.