10/5/08

Radar Quebrado (Monólogo de Defesa)

 

CENA 19 – EXT. – DIA – BAR DA ESQUINA

 

Jorge entra pela esquerda, afobado, e aproxima-se da mesa cheia de mulheres.

 

JORGE

 

Desculpem o atraso. Perdão, moças, mas sou obrigado a discordar. Queiram sentar-se, por favor, tenham a bondade… Vocês praguejam e resmungam, porém gostaria de saber onde estavam quando Romeu morreu de amores por Julieta? Ou quando todas as românticas canções com nomes de mulheres foram feitas? Não estamos mais na época das “Mulheres de Atenas”, então por qual razão ainda tecem seus longos bordados? Creio que trata-se de um pequeno problema no que diz respeito a “procurar”. E, nobres colegas, não estou me referindo a buscas malsucedidas nos sites do “Google” ou do “Yahoo”. Das duas uma: Ou vocês são míopes ou o famigerado sexto sentido de vocês precisa ir para a assistência técnica; seus radares estão quebrados. Não é a primeira vez que reclamo. Nesta guerra dos sexos já perdi muitas batalhas, contudo, hoje não mais, não ultimamente. Acredito que após algumas boas pancadas na cabeça a gente acaba aprendendo, mas não sei por qual motivo ouço sempre reclamações e tentativas frustradas de me convencer que “homem não presta”. Oras, esse discurso preparado não me passa de uma mera desculpa esfarrapada para não precisarem assumir que, mais uma vez, escolheram errado.

 

Um breve motim se instaura. Jorge prossegue.

 

JORGE

(continuando)

 

Sim, pois não precisa ter bola de cristal pra perceber quando um cara não presta; basta notar seu retrospecto. Digo por experiência própria. Neste momento estou entregando o ouro a vocês, porém, não precisam agradecer (Jorge ri ironicamente). A verdade é que Nelson Rodrigues estava assustadoramente certo: “Nem toda mulher gosta de apanhar; só as normais”. Mas, por favor, não me entendam mal, machista é uma coisa que realmente não sou. Entretanto, me intriga essa tamanha “habilidade” de atrair cafajestes insensíveis e aproveitadores baratos, para depois pichá-los, quando na verdade deveriam prestar mais atenção aonde põem os pés. Se não, vejamos (momento didático pretensioso – Jorge mostra-se empolgado): Meus pais namoraram dois meses apenas, casaram-se e estão juntos até hoje, vinte e cinco anos depois. Não posso ter absoluta certeza de que nada colocou-se no meio do romance dos dois, principalmente no início, mas sei também que minha velha não deixaria passar batido qualquer coisa que meu coroa fizesse. O contrário também vale. Sei da história de vida dos dois e tendo a acreditar numa versão muito inspiradora, com final feliz. (Pausa) Bem, deixando um pouco de lado este “momento conto de fadas” (pensa: “afinal, sei que hoje em dia é exceção; não regra”), quero voltar a me ater ao fato de que é possível, o amor existe! Já cantarolava Marvin Gaye: “Let’s get it on, baby!”. O.k., vamos partir do pressuposto que vocês estão certas, então. Só tem uma coisa: Eu também tenho minhas reclamações a fazer, e se é pra seguir a mesma linha de raciocínio, quero afirmar que vocês não prestam! Sim, sim, são pilantras do mesmo modo, além de saberem fazer seu joguinho como ninguém. Dizem que não ligam pra beleza, mas aqueles caras certinhos que ficam aos seus pés, esses vocês não deixam escapar quando querem ser bajuladas, não é mesmo, madrastas? Vocês sempre precisam do encontro semanal com o “espelho-espelho-seu”, ou estou falando alguma bobagem? A realidade é que vocês gostam de ser perseguidas pelo Lobo-mau e não vêem a hora de pegar a cestinha, ir correndo até a casa da vovozinha, chorando, e dizendo que ele é mau, feio, chato e bobo.

 

Uma das moças ameaça falar. Jorge a interrompe.

 

JORGE

(continuando)

 

Ah, mas sintam orgulho! Hoje em dia vocês já são emancipadas, não precisam mais da gente. Muitas de suas coleguinhas, inclusive, levam isso a sério demais e acabam por desfazer o sonho do “príncipe encantado” de tantas outras meninas; a vida é dura. Conversei com uma amiga minha esses dias e acho muito válido o que ela me falou: Os homens só fazem o que fazem porque há uma predisposição por parte de vocês em aceitar isso. Vou explicar melhor: Os caras tentam te sacanear porque sabem que, nos tempos de hoje, mais cedo ou mais tarde, alguma vai cair, aceitar a situação, e ele se sentirá à vontade pra continuar levando você no papo. Sempre foi assim, a diferença é que antigamente não havia predisposição em se vingar, chutar ou mandar o malandro pastar. Na verdade, sei que esses contratempos são muito úteis como experiência para se evitar decepções futuras e blá-blá-blá, só que pendemos a olhar sempre para o nosso próprio umbigo, na esperança de nos confortar e isentar de culpa. O fato é que ninguém é perfeito, e a máxima de que “existe sempre um chinelo velho para um pé cansado” ainda mostra-se muito verdadeira. Veja, mesmo isso aqui não sendo uma sessão de auto-ajuda nem um livro de culinária, aí vai uma receita, minhas “amiga”: Abram o olho, pensem bem e peloamordedeus parem de choramingar pelos cantos! Ser um imã para confusões e caras maus-caracteres não é privilégio de poucas, não. Façam assim: Por que não montam um grupo de apoio? (Jorge ri) O MU.R.QUE – Mulheres do Radar Quebrado. Hein, o que acham? No qual seus lemas seriam: “Não vou ligar para ele, por mais que eu esteja desesperada… só por hoje”, ou: “Prometo não cair na sua conversa mole nem sorrir quando alguém disser seu nome”. A união faz a força, é ou não é?

 

Neste momento, as moças fitam Jorge com desdém. Jorge mostra-se intimidado.

 

JORGE

(Fazendo-se sério)

 

Brincadeiras à parte, quero deixar bem claro que não se trata aqui de mera gozação, mesmo porque costumo padecer desses problemas amorosos até mais vezes do que gostaria, porém, creio que estou aprendendo a instruir melhor meu cupido na hora de soltar sua seta desembestada e regular meu sonar submarino, do fundo do meu peito, para identificar rapidamente os inimigos. Acho que não é tão difícil assim, sei que vocês conseguem, afinal, se tiveram a coragem de queimar sutiãs em praça pública, o que é chamuscar o coração de vez em quando? (Pausa) Bem, o papo tá bom, só que agora vou-me indo pois tenho um encontro com a mulher da minha vida, vou pegar minha mãe no trabalho. Beijos.

 

Jorge levanta-se, sai pela direita assobiando e caminha calmamente subindo a rua.

 

 

Bruno Galhardo. 10 de maio de 2008

criado por Bruno    21:18 — Arquivado em: Geral

8/5/08

Cair

 

Calvário.

Começo, calma…

Caindo contido,

colori controversas canções,

causei comoção

e controlei crueldades.

 

Criado da cria,

criei consciência:

Contei corações

cretinos, cobertos

de capim e concreto;

corrompida carne -

comida do cão.

 

Crê na cadência;

cadência do cair.

Casto e calado,

meu coração calejado

contou com Camila,

contaminou-se com Carla

e por Carminha chorou.

 

Contra a corrente clamou,

colocando-se claramente

como conta-corrente;

credor, Carolina.

 

 

Bruno Galhardo. 8 de maio de 2008

criado por Bruno    1:45 — Arquivado em: Geral
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