21/6/08
D de Derrota
Marcus mostrava-se indiferente.
- Alô, você me ligou? - disse com a voz serena.
- Não… - respondeu Manu, completamente evasiva.
- Seu número está marcado aqui. – retrucou, sem muita vontade.
- Talvez eu tenha apertado sem querer. – rebateu, com menos vontade ainda.
- Ah, o.k. então.
- Tá. Tchau.
Foi assim que o casal, junto há mais de quatro anos, encerrara a conversa no exato dia em que a mãe de Manu fazia aniversário.
- Puta, esqueci que hoje é aniversário da D. Cecília!… – pensou alto.
(…)
Fazia dois dias que não se viam.
- Saímos no domingo. É melhor, Manu.
Marcus não sabia dirigir. Não se importava muito, afinal, o alto grau de miopia sempre fora sua desculpa. Domingos longe dos transportes públicos superlotados e uma caminhada vagarosa até o restaurante mais próximo eram um deleite para ele.
Manu não era complicada; vestia-se simples, uma vez que a natureza fora generosa com ela. Marcus, por sua vez, no auge de seus vinte e cinco anos, exibia opulentas entradas, evidências cruéis da hereditária calvície. Deus sabe como ele odiava certas ciências.
As “exatas” e “biológicas” eram um incomodo tão grande para ele quanto o fato de ter esquecido o aniversário da mãe de sua namorada. Tudo andava frio entre eles, Manu havia telefonado no começo da semana para pedir um livro e acabou por tocar no assunto.
- (…) “Só As Mães São Felizes”, da Lucinha Araújo, eu te dei no dia dos namorados, lembra?
- Ah, tô com ele, sim. Você quer?
- Tá, amanhã eu passo aí e… ah, sexta é aniversário da mamãe, hein, vê se não esquece.
- Claro que não, Manu.
- Tá, me liga e combinamos. Beijos.
- Beijos.
A representação do casal perfeito não cabia mais a eles. Os anos desgastaram a relação como água do mar em costão rochoso, se respeitavam, se gostavam e se queriam, porém, a serenidade de Marcus talvez tenha esfriado as coisas, ou, ocasionalmente, o eruditismo de Manu sufocara o sentimento espontâneo.
Manu era culta, lia livros aos montes, falava três línguas, freqüentava saraus e era fã incondicional de cinema italiano. Marcus a admirava, e via em seu vasto, porém - como ele mesmo costumava dizer - ineficaz conhecimento teórico um bom par para a sua constância em práticas de comunicólogo: Marcus era radialista.
Correria e muitas idéias fervilhando na cabeça eram suas companhias de segunda a sábado. Domingo, sua “folga”, era mais “tranqüilo”, pois apenas a transmissão do Estadual de basquete subtraía-lhe algumas horas da noite.
(…)
Pronto. Um minuto de conversa ao celular e lá se ia sua meia hora de almoço. Tudo por causa do peso, não da comida mal mastigada, mas da percepção de que algo andava torto. Marcus pensou em ligar novamente, mas desistiu. Sentia a vontade de se redimir, no entanto, não sabia de quê.
Aniversários são datas especiais, mas para ele esquecer-se de parabenizar alguém que completa sessenta e oito anos de idade trata-se de um favor, não um desleixo. Quando se esquecera daquele 12 de junho de 2001, ano conturbado para eles, diga-se de passagem, e compensou com apelos românticos, que não nos cabe agora rememorar, Marcus não sentira um oitavo da culpa que sente agora. Era o choque da constatação, as coisas não estavam bem.
- Será que a Manu não me quer mais? será que ela tá com outro cara? puta que pariu!… mas por quê, eu não fiz nada pra ela… porra, acho que é isso, eu não ando fazendo nada e… puta, já sei, vou ligar pra ela agora mesmo e dize…
- Dois minutos pra entrar no ar, Marcão! – avisou o sonoplasta, em meio à crise nervosa de seus pensamentos.
O boletim informativo daquele dia ficou malfeito. Marcus alegou problemas pessoais graves, assegurou-se de colocar alguém em seu lugar e correu para o metrô - sentido Vila Madalena - partindo em direção à casa de Manu. Lá chegando, encontrou-a com cara de poucos amigos.
- Onde você tava, Marcôs?! – a propositada e exagerada entonação da segunda vogal era sinal de problema. Injuriado, Marcus se adiantou:
- Não vim aqui pedir desculpas, algo me incomoda, Manu. Não preciso te dar satisfações, tão pouco ouvir seus sermões, guarde-os pra você. Sempre fomos muito acomodados, mas não posso me dar ao luxo de fingir que nada está acontecendo… - disse acelerado e com a voz embargada. Os dois começaram timidamente a chorar e, como se tivesse ensaiado, Marcus completou:
- Vou me desligar de você, cortar a liga. Meus pensamentos se desdobram sempre em nós dois, mas acho que tudo está sendo em vão. As palavras de afeto, os abraços, as mensagens de celular, esqueça tudo, foram remendos imperfeitos, sucessivos. Eu vou indo. Obrigado por nada.
Ele virou-se, e rezou como nunca para ouvir um “espera” ou um deslocado e convidativo “eu te amo”, contudo, a vontade de Manu, mesmo que somente inconsciente, era de deixá-lo ir. Ela também estava cansada, cansada do jogo, de suas ligações pontualmente às seis, de seu excesso de zelo, de sua barba por fazer, enfim, a inércia superara a vontade (e de novo aquelas ciências atravancando o caminho de Marcus).
Foi assim. Ambos lavaram as mãos. O tédio de um relacionamento e a mesmice do dia-a-dia mataram o casal. Talvez Manu pensasse em se casar com ele ou quem sabe Marcus precisasse de férias apenas, mas o que ficou de fato foi a leve impressão do corrido e maltratado amor: Duradouro, porém fraco; grandioso, porém neutro. O tempo é o dono da razão, senhor dos imprecisos corações. Esse foi, sim, o “dia D” na vida dos dois…
D…
D de derrota.
Bruno Galhardo. 21 de junho de 2008
criado por Bruno
19:11 — Arquivado em: 
