21/7/09

Despedimento

 

Para os que vão: Barro no chão.

Para os que estão: Luto padrão.

Bem como dizia vovó:

Vaso ruim não se quebra,

e jarro bom vira pó.

 

 

Bruno Galhardo. 21 de julho de 2009

 

* Este texto, deliberadamente, não respeita a nova reforma ortográfica, vigorante desde janeiro de 2009 

criado por Bruno    5:34 — Arquivado em: Geral

5/5/09

Como Fazer Uma Viagem Mais Curta Até Vênus

 

Às vezes,

quando fazemos tudo certo

fazemos um tudo de errado.

Tantas das vezes que erramos

tencionávamos acertar;

certos nossos acertamentos

foram imprecisos, aprecio.

 

Sim, é assim.

Religião, coração, futebol…

A razão, por tão insensata,

é apenas um ponto de vista

e sempre somente será.

 

 

Bruno Galhardo. 5 de maio de 2009

 

* Este texto, deliberadamente, não respeita a nova reforma ortográfica, vigorante desde janeiro de 2009 

criado por Bruno    2:37 — Arquivado em: Geral

15/4/09

Noitedia

 

O dia é puro.

Branco como roupa no varal,

alvo tal qual alma dependurada

pós lavatório de remorso.

 

Fica-se cândido

tudo que é turvo,

rubro,

tudo que é chulo.

Porque o claro reflete.

 

É o intato papel,

um sorriso bonito,

é o tom do vestido

num domingo no parque;

uma nuvem em palito.

 

O dia é julgamento,

acuamento do escuro,

esperança pro justo,

convenção do etéreo. 

 

É a cal na parede,

o leite materno,

a barba do sábio,

a farinha na massa,

o açúcar da vida.

 

Já a noite é suja.

Grosseira feito mancha na roupa,

mosca na sopa,

feijão no dente,

ilusão para o crente.

 

Mostra-se negro

nada de casto,

vasto,

nada que é reto.

Pois o preto absorve.

 

É o saco de lixo,

o torrado objeto,

é o traje vestido

numa segunda de luto;

o perder-se num túnel.

 

A noite é angústia,

ajuntamento de resto,

consternação do aflito,

aliança estéril.

 

É o piche grudento,

o pão bolorento,

a praga nos autos,

circunstância agourenta,

a guerra do óleo.

 

Mera marcação.

Não há dia que, carente,

não reclame pela noite

nem negrume, consciente,

o qual não clame claridade.

 

O amor não tem cor.

 

 

Bruno Galhardo. 15 de abril de 2009

 

* Este texto, deliberadamente, não respeita a nova reforma ortográfica, vigorante desde janeiro de 2009 

criado por Bruno    1:14 — Arquivado em: Geral

1/4/09

Quarta-Feira de Cinzas

 

Disparou, tocou trombone

como ao longe se escutou:

Sim, é marcha, não duvide,

mas em tudo tem de triste.

Operários, aprendizes,

camicases, meretrizes,

anarquistas, bolcheviques -

quem quiser se travestir

pode vir que é aqui.

Todavia, em coro surdo,

geminado o sem-par,

faixas, feixes e balões;

momos, bobos e bufões,

detiveram-se aquele dia

ao passar pela avenida

um festim desavisado.

 

 

Bruno Galhardo. 1º de abril de 2009

 

* Este texto, deliberadamente, não respeita a nova reforma ortográfica, vigorante desde janeiro de 2009 

criado por Bruno    2:25 — Arquivado em: Geral

18/3/09

2.500.000

 

Que prazer!…

 

Que prazer pisar-te as faces.

Não é engodo, é sincero.

Estou cruzando com a Teixeira

e não me encontro acelerado.

 

No prosaico e no complexo,

no disforme e no concreto,

há um certo protelar.

 

Ah, tuas árvores de metal

e tuas paredes transluzentes;

em teus relógios a hora errada,

e, meu Deus, por tanta gente!

 

Sinfonias tão modernas,

entoadas do cimento.

Pros que dizem “não dá”: se,

pros que crêem “é em vão”: dó.

Mas poupe-me do cinza,

que em parte ainda é arte.

 

Que prazer é poder rir

(e chorar quando convém),

das películas às retinas,

do retículo ao ridículo,

mais que um ciclo viciador.

 

E que prazer presenciar

teu tumulto ao meio-dia,

teu tumulto à meia-noite -

tumultuados meios-fios.

 

Ver os tecos nos botecos

e a deselegância das meninas…

Não te cansas ser assim? 

Imorais legalidades

empurraram-me até aqui.

 

Que regozijo é tropeçar

nos teus pés estudantis,

emaranhando-se contentes,

e novamente, e novamente,

até um quarto na Arnaldo.

 

O teu bosque de marmanjos,

pendurados pelo saco.

Debochados, não se importam

em caçar por entre o mato

flores novas, donairosas.

 

Um “quem?” repercutente

nunca deixa arrefecer

a idéia de correr,

mesmo só por um instante,

do mais nobre ao figurante,

todos sob a luz de antenas,  

todos sobre a zebra-ponte.

 

Debaixo de teus fortes

muitos buscam abrigadouro.

Faça chuva ou faça sol,

todos juntos ou um só -

Se ventar ninguém atura,

mas ninguém tem mais altura.

 

Que prazer!…

 

E ao mesmo tempo, que desgosto…

Que desgosto perceber,

que percorrido os imprecisos

dois milhões e quinhentos mil milímetros,

eu, que intento o Paraíso,

fui te encontrar, Consolação.

 

Porém, pro fortúnio de alguém,

tudo é apenas uma questão de vetor.

 

Não é assim, Joaquim? 

 

 

Bruno Galhardo. 18 de março de 2009 

 

* Este texto, deliberadamente, não respeita a nova reforma ortográfica, vigorante desde janeiro de 2009 

criado por Bruno    2:06 — Arquivado em: Geral
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