Que prazer!…
Que prazer pisar-te as faces.
Não é engodo, é sincero.
Estou cruzando com a Teixeira
e não me encontro acelerado.
No prosaico e no complexo,
no disforme e no concreto,
há um certo protelar.
Ah, tuas árvores de metal
e tuas paredes transluzentes;
em teus relógios a hora errada,
e, meu Deus, por tanta gente!
Sinfonias tão modernas,
entoadas do cimento.
Pros que dizem “não dá”: se,
pros que crêem “é em vão”: dó.
Mas poupe-me do cinza,
que em parte ainda é arte.
Que prazer é poder rir
(e chorar quando convém),
das películas às retinas,
do retículo ao ridículo,
mais que um ciclo viciador.
E que prazer presenciar
teu tumulto ao meio-dia,
teu tumulto à meia-noite -
tumultuados meios-fios.
Ver os tecos nos botecos
e a deselegância das meninas…
Não te cansas ser assim?
Imorais legalidades
empurraram-me até aqui.
Que regozijo é tropeçar
nos teus pés estudantis,
emaranhando-se contentes,
e novamente, e novamente,
até um quarto na Arnaldo.
O teu bosque de marmanjos,
pendurados pelo saco.
Debochados, não se importam
em caçar por entre o mato
flores novas, donairosas.
Um “quem?” repercutente
nunca deixa arrefecer
a idéia de correr,
mesmo só por um instante,
do mais nobre ao figurante,
todos sob a luz de antenas,
todos sobre a zebra-ponte.
Debaixo de teus fortes
muitos buscam abrigadouro.
Faça chuva ou faça sol,
todos juntos ou um só -
Se ventar ninguém atura,
mas ninguém tem mais altura.
Que prazer!…
E ao mesmo tempo, que desgosto…
Que desgosto perceber,
que percorrido os imprecisos
dois milhões e quinhentos mil milímetros,
eu, que intento o Paraíso,
fui te encontrar, Consolação.
Porém, pro fortúnio de alguém,
tudo é apenas uma questão de vetor.
Não é assim, Joaquim?
Bruno Galhardo. 18 de março de 2009
* Este texto, deliberadamente, não respeita a nova reforma ortográfica, vigorante desde janeiro de 2009