23/10/08

Amor do Não-Amar

 

Gosto do amor como respeito,

desonerado das obrigações.

Amor do não-amar,

do companheirismo rotineiro,

do quase inexistente amor.

 

Não dos presentes e datadas decorebas,

nem do ciúmes e dispensáveis ligações.

E sim do dividendo que aprendi

na calada admirar.

 

Que me chame pelo nome,

mas mantenha-se fiel ao pacto dos homens -

deferência mutualista.

Que me diga, mesmo com os olhos marejados,

que não gostou, que não concorda,

mas que me diga…

me conte

o que no peito esconde.

 

E é por isso que suplico,

expectando que releve

e aceite o rebuliço

destas palavras ensaiadas

na tentativa de homenagem,

pela falta de piano.

 

Te amo.

 

 

Bruno Galhardo. 23 de outubro de 2008

criado por Bruno    2:05 — Arquivado em: Geral

11/10/08

Sinestesia

 

Síntese.

 

Sou eu a rédea da visão,

a indolência do assistir,

a muleta molambenta que sustenta o leproso,

a indigna insatisfação que te perpassa o osso.

 

Miúdo raio vivo

o qual penetra nos teus cílios,

escorre pelo entorno

ondulado do teu globo

que, embebido e avermelhado,

me revela os teus temores…

 

(amores)

 

Não são eles arapucas?

Que com teus véus de seda branca

fazem luz de carapuça?

Não sois vós os coerentes,

fortes, baixos, deprimentes,

mal vendidos sobre-humanos?

 

E a cegueira da justiça?

Foi vendada por malícia

ou conveniente confusão?

 

Não são esses os olhos oniscientes

que, indefesos frente a morte -

surdez do coração -,

descompassam em harmonia

por sofrida melodia?

 

Tateio-te rente ao lago,

mas me encontro nau à deriva

quando encosto nos teus lábios

tão molhados de cobiça.

 

E, por fim, sinto teu cheiro

poderoso a derramar

os teus mais densos desejos

de entornar pro teu lugar.

 

Mas me pego novamente,

inocente a perguntar.

E me torno pro princípio,

pro mais fútil benefício,

no qual está o brilho fundo

oriundo da beleza

que só no escuro hei de enxergar.

 

 

Bruno Galhardo. 11 de outubro de 2008

criado por Bruno    5:09 — Arquivado em: Geral

22/9/08

Calmaria

 

Digo que melhorou

porque sei quando piora.

Meu amor,

está chovendo inspiração sobre meu dorso,

e nenhuma das gotas traz teu nome.

 

Disforme é meu jeito de cortejá-la,

gotejá-la de palavras duras e sem vontade.

Tu mereces mais.

Mais do que esta emenda de absolvição,

mais do que perdidos pedidos de perdão.

 

Ontem piorou.

Querida,

está chovendo lá fora, e eu estou seco.

Seco feito um saco de areia fúnebre,

e tudo que tenho a dizer é:

“Sinto muito”.

 

Não sinto.

 

Se sentisse não me aventuraria em mares tão revoltos

nunca dantes navegados,

não colocaria os pés nas gélidas águas só porque os puseras também,

não revelaria impune a maior de nossas fraquezas,

não proferiria a traiçoeira tríade de palavras…

 

Mulher,

não se rebaixa um macho,

não se sossega o facho

de quem nunca precisou.

 

Nós somos fortes (sorte de quem nasce),

somos unidos (munidos de independência),

somos marcos (claros pela história),

indiscutivelmente fracos.

 

Nem adianta conclamar.

Meus reclames recorrentes

encontraram nos teus braços -

ora firmes, ora apertados -

a calmaria que um dia

em meus sonhos procurei.

 

 

Bruno Galhardo. 22 de setembro de 2008

criado por Bruno    23:10 — Arquivado em: Geral

7/9/08

Cartinha

         

          Percebo que hoje acordara com o lobo direito, não é? Ao sair da cama, espreguiçou os suportes da subjugação, estalou os donos da verdade e pensou: “Hoje faço história!”.

          Minto? Vai agora desdizer-me e alegar que não é assim todos os dias? Prudência, menino, prudência. É sempre que acha nas mais vis oportunidades a chance de por os pés no trampolim? É duro vê-lo de mãos com a mediocridade. Verdade que não o conheço, porém, sinto-me na obrigação de devolver, tinta por tinta, a ferocidade com a qual recebi suas sábias (sic) palavras.

          Talvez seus poucos anos dêem por falta da coerência dos outros vindouros, mas não é pretexto; leia este texto em remoída homenagem. Você, que, bem sei, almeja um cômodo trono entre os magos do saber, nem se dá conta de quão patética é sua forma de praticar. Seu superficial domínio das situações me traz a igual sensação suscitada via petulância, o asco pela ignorância.

          Vivo de corrigir meus textos, rever minhas cartas. Mas desta nem você - nem qualquer aspirante a grão-mestre deste já profanado léxico ibérico - balbuciará as palavras, aqui irretocavelmente postas, em vão. Você, coitado, com seu intelecto limitado e com ares de doutor é um encosto que está por estas bandas a tardar. Humildade, professor.

          É certo que o vejo em meus pensamentos belo e pomposo, sentado em sua poltrona de ego insuflado e inflamável. Mas creia, caro colega de intrínseca arrogância, que sapiência provém da imaculada vontade de criança de aprender sem medo de errar, sem culpa desse seu raro discernimento (sic) não haver. Picuinhas à parte, diga-me: Qual de seus mestres ensinou-lhe a petulância? Qual deles fez crescer desgovernada a face da superioridade?… Melhor: Qual deles não lhe especulou o bom senso, de longe o que mais está falto?

          A ponto de encerrar, eu pondero. Pondero, já que é assim - descarregado de todo talante de rebaixá-lo ao seu lugar - que vejo os grandes desfilarem. Entretanto, longe de mim equiparar-me a gigantes. A soberba é um fardo e, de fato, sua fortuna.

          Filho do “inho”, é com prazer que me despeço e deixo, como relapso, os cumprimentos sinceros de quem nunca o estimou. Pois aprendi com as minhas falências: Melhor dissipar do que em finos potes guardar.

 

P.S.: É “Cartinha”, porque os diminutos não somente se atraem; se merecem.

 

 

Bruno Galhardo. 7 de setembro de 2008

criado por Bruno    13:06 — Arquivado em: Geral

29/8/08

Tatuagem

 

É tatuagem

o batom vermelho em mim.

É maquiagem

a paixão de frio outono.

 

Passar o pano, quitar o sujo…

 

No fim (arrependimento) de noite

muito fácil é desfazer

o disfarce de palhaço;

a finita cor de março.

 

Não seja tola.

Tintas que borram

não corroboram amor maior.

 

Longos duetos

com densos contextos,

ou belos sonetos

em par com provérbios

de longe sustentam

tal arte adular.

 

O que fazemos nós, então?

 

Talhamo-nos como gado

com um dardo que perfura,

fura nossa pele,

fere as entranhas

e justifica.

 

Faz jus ao sentimento,

mesmo que pobre e cinzento.

Considere o elemento

das insanidades impulsivas.

 

São todas concebíveis.

 

Pois quando a carne sangra

a cicatriz vem de resposta

e posta em nossa frente

a suposta eternidade,

logo mostra a imprecisão

desse estúpido infindo.

 

Amor, ferida divina;

dor, despeito da glória.

Saibam que juntos

firmes conjuntos desgastam.

 

Porém nem as mais profundas marcas da vida

possuem cor, melanina,

que o tempo não possa suplantar.

 

 

Bruno Galhardo. 29 de agosto de 2008

criado por Bruno    1:47 — Arquivado em: Geral
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